Torna-se necessário reflectirmos sobre a
actualidade da participação cívica, como elemento fundamental, diria mesmo
imprescindível, de um regime democrático e de direito.
A nossa sociedade não pode, nem deve, ficar-se pela representatividade, deve
participar, deve intervir para além dos actos eleitorais. É neste sentido que a
participação cívica ganha uma importância preponderante.
Estamos num país muito dado à indiferença e ao desinteresse pela coisa pública,
esperando-se que a democracia portuguesa, nomeadamente os governos, exercessem
uma natural pedagogia sobre a participação dos cidadãos.
A verdade é que o actual país acha a democracia uma chatice e a participação
dos cidadãos uma maçada incómoda.
Existe uma aversão à expressão pública da política, ao seu debate e ao seu
confronto, agravando o desinteresse colectivo e a indiferença cívica a níveis
preocupantes.
O caso ultrapassa o âmbito dos poderes meramente políticos para a sociedade
civil e suas instituições representativas.
Por todo o lado, de cooperativas a instituições de solidariedade social,
associações culturais ou desportivas, o associativismo, salvo raras e honrosas
excepções, arrasta idêntico défice de intervenção cidadã.
Tudo isto converge num vazio cultural que é a nota mais evidente de ausência de
pensamento crítico e de capacidade de acção sobre as várias realidades, sejam
da política, sejam da sociedade civil.
Não havendo uma cultura de diálogo, não existindo participação cívica, a crise
instala-se na democracia alastrando os seus problemas às instituições que se
tornam incapazes de resolver as suas crises interiores algumas até perdendo a
relativa independência de que gozavam.
Estas situações, cujos exemplos se conhecem um pouco por todo o lado, têm uma
outra dimensão igualmente penalizadora da sociedade: o fraco grau de
consciência pública dos problemas.
Podemos afirmar que existe, hoje, uma crise na democracia que se fundamenta na
debilidade da participação cívica das populações.
Temos, que contrariar expressões como “eles que decidam por nós”.
Algumas das soluções para a crise do país residem na participação activa de
todos nós.